26 de set de 2011

Os incidentes fora de contexto do Other Music.


Tenho certeza de que a maioria dos leitores deste blog sabe o que é um gamelão, mas como sempre tem uma minoria que não sabe ou nunca ouviu o som produzido por este fantástico instrumento coletivo, muito popular no sudeste asiático, vou explicar rapidamente: o gamelão é uma parafernália sonora composta por uma variedade fabulosa de instrumentos de bronze (metalofones, xilofones e gongos) tocados em conjunto com tambores, gonzos e outras percussões. O som é marcante, exótico e até mesmo hipnótico.
Pois bem, lá por 1975, três jovens estudantes de música da Califórnia, Henry Rosenthal, Dale Soules e David Doty, inspirados pelo trabalho de Harry Partch e Lou Harrison, dois compositores americanos que construíam inusitados instrumentos para tocar suas composições de vanguarda, começaram a pesquisar novos sons a partir de instrumentos acústicos que eles mesmos confeccionavam. Com o passar do tempo e com a adesão de outros músicos, eles acabaram virando um coletivo de mais de uma dezena de integrantes que se aventuravam na sonoridade do american Gamelan, uma espécie de versão McDonald’s do gamelão indonésio e composto por várias instalações percussivas construídas em alumínio. O nome desse coletivo: Other Music.
Ativo de 1975 a 1986 e com apenas dois discos lançados, talvez o aspecto mais original do trabalho do Other Music tenha sido sua flexibilidade no uso das mais variadas escalas dentro da corrente do Just Intonation. O JI, ou entonação justa, é qualquer afinação musical na qual as frequências das notas se relacionam por razões de números inteiros. Qualquer intervalo afinado dessa forma é chamado de intervalo justo, ou seja, as duas notas são membros da mesma série harmônica (que ninguém fique impressionado, pois tirei esta explicação da Wikipédia).

Incidents Out Of Context, de 1983, o segundo disco do Other Music e motivo deste pequeno texto, é uma das introduções mais acessíveis ao conceito de Just Intonation. E antes que alguém pense que estamos falando de plinc plóincs enfadonhos, é bom ter em mente que este LP tem a intenção de ser música pop e, me arrisco a dizer, com um pezinho bem calçado no rock progressivo. E tudo porque o coletivo que gravou o primeiro disco se transformou num grupo de apenas 5 músicos que encampou à sua sonoridade pouco comum instrumentos elétricos e eletrônicos. Temos aqui, além de algumas instalações que compõem o gamelão americano, a presença de guitarra, sax, cello, dulcimer e sintetizadores, explorando harmonias alternativas e inusitadas com um senso de timing tão perfeito que é impossível ficar indiferente. 

Bom, por uma absoluta falta de maiores argumentos para explicar o inexplicável deste disco, melhor ir ficando por aqui e encerrar com as próprias palavras do Other Music, registradas na contracapa do LP: “Talvez fosse melhor e muito mais simples dizer que nós compomos melodias pop poliritmicas... Nós nos divertimos com elas e esperamos que você também.”

Faixas:

Compulsive Behavior
Music With Too Many Parts
It is It, Part One
It is It, Part Two
The Spirit is Willing
Incidents Out Of Context

Músicos:

Andrew Fischer – hammered dulcimer, dumbec, English horn, metallophones, synthesizer 
David B. Doty – cello, marimba, metallophones, synthesizer 
Dale S. Soules – French horn, trombones 
Carola B. Anderson – deums, marimba, metallophones, saxophone, synthesizer
Henry S. Rosenthal – chimes, drums, electric guitar, metallophones, syntesizer



por Marco Gaspari


2 comentários:

Groucho KCarão disse...

Nunca tinha ouvido falar desse conjunto - nem de muita coisa que se falou no post. Parabéns pelo tópico, Gaspari!

Herman disse...

Também nunca tinha tido contato com esse grupo,o mais perto que cheguei disso foi naquelas viagens do Plant e Page com aquela sonoridade marroquina...hehehehe...som de primeira,valeu pelo post Marco!

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